IDENTIDADE NEGRA X LITERATURA NEGRA
Franceli Aparecida da Silva Mello - UFMT
A presença do negro na literatura brasileira sempre foi discreta e, quando ocorreu, deu-se muitas vezes de forma negativa e/ou estereotipada, em que ao negro se associava a idéia do mau/mal ou da passividade. Pode-se afirmar que só a partir dos anos 20 e 30 deste século a cultura afro-brasileira foi incorporada à nossa literatura de uma maneira mais positiva, graças à influência da vanguarda européia, que buscou inspiração no primitivismo da arte africana para delinear sua estética essencialmente inovadora.
Excetuando-se as manifestações esporádicas e individuais ocorridas ao longo de toda a nossa história literária, a presença do negro como produtor de literatura é fenômeno ainda mais recente; sendo os Cadernos negros uma publicação que se destaca pela sua longevidade e regularidade de edições. Ininterruptamente, desde 1978, o grupo Quilombhoje vem mantendo esta publicação, cujo principal objetivo é dar oportunidade aos autores afro-brasileiros de divulgar sua literatura, visando ao estabelecimento de uma identidade negra como parte da realidade do país.
Não é tão simples definir o conceito de identidade, havendo, inclusive quem proponha substituí-lo por “identificação”, mais dinâmico e aberto em relação ao primeiro; da mesma forma, não existe consenso em relação ao que seja a identidade negra. Contudo, não sendo este o meu propósito no presente trabalho, sinto-me à vontade para tomar como ponto de partida a definição de Jean Paul Sartre, segundo a qual, o conceito de negritude relaciona-se à busca de autodescoberta, que, em sua dialética, rejeita valores impostos, ao mesmo tempo em que redescobre a existência autêntica.
Quando se trata de literatura, vemos que há um complicador nesse pressuposto. O texto literário não existe solto no mundo da cultura letrada; está sempre retomando, comentando, enfim, interagindo com outros textos da série literária e que são, no caso brasileiro, expressões da cultura branca de tradição européia. Desse modo, acredito ser problemático falar numa literatura essencialmente negra entre nós, embora isso não dispense os escritores negros de reivindicarem uma participação mais positiva nesse universo. Positiva não só no sentido quantitativo, como também no de afirmar uma presença objetiva, mostrando o quanto a contribuição da cultura negra enriquece a literatura brasileira; não só ela, mas a sociedade como um todo.
Discorrendo sobre a questão da identidade do negro no Brasil, Wilson do Nascimento Barbosa, afirma que o multiculturalismo é a melhor defesa contra a padronização cultural e comportamental, impostos pela classe dominante. Não sendo uma simples mistura de culturas, mas a afirmação independente de cada etnocultura, o multiculturalismo é a resposta democrática à cultura oficial, com seus produtos “enlatados”. Para o autor, o uniculturalismo é simples agência do capital que procura nivelar por baixo as diferentes culturas.
A percepção da importância da diferença leva a valorizar o outro, como algo distinto de si mesmo. Esta valorização da diferença demonstra que pode-se aprender de distintas comunidades e grupos, particularmente daqueles que têm experiências diferentes das nossas e que até aqui não estivemos interessados em conviver, ou não tivemos oportunidade de fazê-lo. Chega-se assim à idéia da sociedade aberta, ou da sociedade democrática. ... A oferta da própria diferença é, pois, um ato livre de criação. É cultura. E não pode ficar restrito aos interesses da elite, com seus processos compulsivos de ocidentalização.[1]
Embora não seja essencialmente diferente, a literatura produzida por escritores negros contemporâneos guarda algumas especificidades que a distingue das demais. Uma delas é a utilização do texto literário como expressão da busca de uma identidade étnica; outra é a presença constante do tema da violência. Nos contos analisados no presente trabalho, procuro demonstrar como a violência exercida contra o negro traz em seu bojo a idéia de extermínio racial e como o reconhecimento de uma identidade própria pode constituir- se numa forma de resistência contra isso.
A violência, mais do que nunca, infelizmente, é algo que perpassa todo o universo social brasileiro. De acordo com Marilena Chauí[2], a sociedade brasileira se realiza institucionalmente sob a forma da violência; autoritária, racista, sexista, discrimina as classes sociais, transforma todas as diferenças em desigualdades, em relação entre um inferior que obedece e um superior que manda, por isso precisa situar os agentes violentos em algum lugar. Os agentes violentos estão sempre colocados “fora” dela, à margem. Desse modo, cria-se um mecanismo de diferenciação em que existe um “eles”, anônimo, que são os violentos (sem-terra, sem-teto, desempregados, trombadinhas, negros, etc) e um “nós” não violento. Alie-se a isso uma violência fundamental, caracterizada pela exploração econômica, pela exclusão social e política e pela dominação, para a qual a sociedade não apresenta soluções efetivas. A saída encontrada para lidar com essa situação, segundo Chauí, é a naturalização, graças à qual mantém-se a universalidade abstrata de um valor, isto é, a suposição de que a violência está “fora” e de que, no cotidiano, a exploração, a exclusão e a dominação são naturais. Assim, considera-se que, por natureza, os negros são preguiçosos, os índios são ignorantes e indolentes, etc. Poderíamos acrescentar à esta lista uma série de outros estereótipos, mas eu gostaria de enfatizar aquele que diz respeito ao temperamento violento dos negros (um exemplo disso está na atitude defensiva das pessoas quando da aproximação de um negro, adulto ou criança, desconhecido), tema do conto que analiso a seguir.
“Policiais morrem em acidente com viatura”, este é o título do conto de Abílio Ferreira[3], que tem como prólogo um fragmento de jornal, mais especificamente da página policial. Este dado inicial já nos informa sobre o principal assunto da narrativa, isto é, trata-se de uma reflexão sobre o cotidiano violento das grandes cidades. Violência da qual os negros são as maiores vítimas, diga-se de passagem.
O texto jornalístico, pretensamente objetivo e imparcial, acaba contrariando esse propósito ao fazer uso do clichê, cuja função, neste caso, é privilegiar o discurso da autoridade, senão vejamos: “segundo o delegado titular do 13º DP... os policiais morreram no cumprimento do dever. ‘Eles estavam a caminho do atendimento de uma ocorrência’, disse o delegado,’ mas o destino os impediu de trabalhar’. ...”(os grifos são meus).As palavras do delegado corroboram o discurso oficial sobre o papel das autoridades como guardiãs da segurança do cidadão.
Contrapondo-se ao discurso do poder, há a outra versão dos fatos; esta dada por um narrador que se coloca, propositalmente, do outro lado, ou seja, do lado dos que não tem espaço na imprensa, nem podem contar com a proteção das autoridades.
Ao fornecer-nos esta “outra versão”, o narrador adota um estilo completamente diferente daquele empregado no prólogo. Aqui podemos observar a influência da técnica modernista de composição (a montagem e a colagem). Além da mistura de estilos, já verificada, os abruptos cortes temporais e o uso da metonímia aparecem como recursos para emprestar mais agilidade à narrativa.
A história começa pela descrição da cena que irá desencadear a tragédia anunciada no início. Trata-se de uma briga num bar. Os espectadores, numa demonstração de sadismo, típico dos que sofrem e precisam ver no sofrimento alheio um consolo para a sua própria desgraça, instigam a agressão. A vizinhança reage sem surpresa: “Os gritos ... acabaram provocando o acender entre-cortinas de janelas irritadas”. O narrador enfatiza o caráter de espetáculo que esse tipo de violência tem para aqueles moradores da periferia, para quem as brigas de bar funcionam como diversão, assim como a bebida ajuda a suportar sua condição de vida: “... os fregueses bafejam, em casa, a cachaça de cada dia”. O ritmo da narrativa é o da rapidez com que essas cenas se armam e se dissolvem. O motivo da briga: Dóris comunica sua gravidez à namorada, Leilá; que parte para a agressão física. Começa a confusão. Nego Juca, o dono do bar, aparta a briga. Alguém chama a polícia, que chega bem mais tarde e encontra as moças sentadas na calçada em frente ao bar. Enfurecida, Leilá acusa Nego Juca de tê-la estuprado. Os policiais invadem o barraco do rapaz, espancam-no e levam-no para a delegacia; porém, no meio do caminho sofrem um acidente do qual apenas Nego Juca sai vivo.
A versão jornalística omite detalhes importantes do ocorrido; ela não nos informa que os policiais estavam drogados quando bateram contra uma árvore, nem que um deles era negro e o outro tinha uma irmã que fora estuprada por um negro, e, muito menos, propõe uma reflexão sobre a violência na periferia das grandes cidades.
Tais informações nos são fornecidas por um narrador que se coloca mais próximo aos acontecimentos. Dessa forma, ele nos mostra uma realidade na qual as relações se estabelecem por meio da violência, gerando uma reação em cadeia. Dóris trai Leilá, que desconta sua raiva em Nego Juca, que apanha dos policiais, que acabam morrendo em conseqüência do uso de drogas.
Paradoxalmente, a maior vítima nessa história é o único personagem verdadeiramente inocente. Nego Juca é alvo do ódio de Leilá por se homem, e do desejo de vingança do policial Ronaldo por se negro. Contudo, Leilá e Ronaldo não são os maiores vilões da história e sim o preconceito. Leilá não quer saber qual foi o homem que engravidou sua namorada, generaliza seu ódio para todos os homens e descarrega-o no primeiro que lhe ocorre. Para o policial Ronaldo as palavras “... NEGO JUCA e ESTUPRO ditas por uma voz chorosa e feminina”, são suficientes para suscitar-lhe o desejo de descontar naquele negro o ódio acumulado durante anos contra o estuprador de sua irmã.
Note-se que nas duas situações o ódio contra Nego Juca tem motivação sexual. Ora, um dos estereótipos relacionados aos negros é o que lhes atribui um pênis grande e, por conseqüência, um instinto sexual desenfreado. Segundo Roger Bastide, a luta racial é, também, a luta entre duas morais, em que ao branco cabe a moralidade e ao negro a imoralidade. Assim, para uma sociedade como a nossa, uma sexualidade exacerbada representa um perigo a ser eliminado. Nesse sentido, o negro é visto como uma ameaça à “boa sociedade branca”. O estereótipo que pode, à primeira vista, ser interpretado como uma vantagem do homem negro sobre o branco, volta-se contra o primeiro.
É sabido que o estereótipo cristaliza o real, impede a reflexão sobre os fatos, induz à generalização preconceituosa, daí seu caráter extremamente conservador. No conto em questão, o discurso “pré-fabricado” do fragmento jornalístico (“... morreram no cumprimento do dever”) ao mesmo tempo em que mascara a realidade, exime a autoridade de dar maiores explicações. Ao delegado não interessa tornar públicas as mazelas da instituição policial: comportamento arbitrário, uso de drogas por alguns de seus subordinados, despreparo psicológico para lidar com as situações, corrupção; muito menos deseja especular sobre as razões disso. O discurso literário, por sua vez, na medida em que aprofunda a discussão, subverte as idéias pré-concebidas, constituindo-se num espaço privilegiado de reflexão e denúncia.
E quanto ao outro policial? Sendo negro, por que não impediu a arbitrariedade contra um seu igual? Provavelmente porque ele não reconhece em Nego Juca um seu igual; sua condição de policial sobrepõe-se à consciência étnica, e até social, fazendo com que ele veja naquele “elemento” apenas um criminoso a ser reprimido (... cumprimento do dever...). Cooptado pela ideologia da corporação, esse policial assume a falsa consciência que o leva a desempenhar o papel de opressor de indivíduos que lhes são semelhantes tanto étnica, quando socialmente. Ele seria um exemplo do que chamamos de “assimilado”.
Assimilação aqui é entendida como a perda dos elementos da cultura de origem em favor dos valores da cultura dominante. Sobre esse tópico, Wilson do Nascimento Barbosa comenta: “a política de assimilação apóia-se nos estereótipos da identidade objetiva do outro, mas não lhe reconhece estatuto subjetivo. Ela, portanto, animaliza o próximo”. Para esse autor, ao assimilar-se, o negro perde sua identidade subjetiva, alienando-se de si mesmo e, em conseqüência disso, torna-se incapaz de distinguir o outro. O negro assimilado foge de sua etnocultura, de sua realidade social e dos mistérios de sua autêntica personalidade. (Observe-se que a personagem de que tratamos faz uso de drogas). Uma vez assimilado pelo sistema, só há uma maneira do negro resgatar sua identidade subjetiva: empreender a travessia de volta a sua cultura de origem.
“Trajetos”[4], de Luiz Silva (Cuti), aborda exatamente este tema, ou seja, o movimento de travessia, da identidade objetiva para a subjetiva, que leva o negro a assumir-se e expor-se despudoradamente, enquanto negro, visual e culturalmente.
Paradoxalmente, o autor parece Ter assimilado muito bem a herança literária ocidental e, já no início do conto, lança mão de um recurso que ficou conhecido entre nós graças a Machado de Assis, nas Memórias Póstumas de Brás Cubas , qual seja, o do narrador morto. Assim, o efeito de estranhamento inicial fica por conta de um narrador que relata seu próprio enterro e de outros companheiros. Em sua caminhada, relutante, rumo ao outro lado eles encontram um velho vindo na direção contrária, que lhes diz:
Eles disseram tudo e vocês acreditaram. Só uma ponta que eles esconderam e que a respiração de vocês conseguiu segurar. Assim é a chamada civilização deles. Camisa-se-força no sentimento e cinto de castidade no gozo. Fizeram vocês remar a própria doença que foi se apropriar de vocês mesmos. Eu venho de lá do Não-Ser. Subi na vida, deixei de sambar, cantar, rir alto, dançar o interior, gozar no deslimite, meti a gravata da ganância...
Neste conto, as principais personagens têm uma trajetória de vida semelhante: partiram da pobreza, venceram na vida, mas tornaram-se pessoas amargas e infelizes. Todas, de alguma forma, assimilaram ideologias estranhas à negritude. João passou de engraxate a gerente de banco, negou-se ao prazer em função do dinheiro; o narrador sempre procurou aproximação com os brancos, casando-se, inclusive, com uma mulher branca; Nino tornou-se um comunista e, enquanto tal, não reconhecia a importância da questão racial, chegando a considerá-la contra-revolucionária.
A partir do encontro com o velho, que “fumava o amor num cachimbinho de barro feito com prazer” (os grifos são meus), coloca-se para os 3 o dilema hamletiano, no qual Ser equivale a assumir a negritude, vivendo segundo o que Freud classifica como princípio de prazer, e o Não-Ser equivale a adotar os valores da civilização, entendida no conto em seu sentido freudiano, ou seja, renunciar ao amor e ao prazer. A opção pelo Não-Ser conduz ao suicídio simbólico, pois ao negar sua raça, o negro não se torna branco, pois não há como substituir a identidade perdida.
Desse modo, para voltarem a Ser, as personagens devem tomar a difícil decisão de empreender a volta às origens/raízes negras. Nino recusa-se a fazê-lo, desliga-se do grupo e prossegue em direção à morte: “ a travessia da identidade objetiva à identidade subjetiva é tarefa extremamente difícil, estressante e grande número de indivíduos negros não conseguem completá-la”, pontua Wilson Barbosa. O narrador e João encaram o desafio e encetam “... o difícil caminho de volta”. Vencidos os obstáculos, ambos conseguem sair da cova. Num lance de realismo fantástico, juntam seus ossos e pedem à terra e aos vermes a devolução de suas carnes. Voltam à vida em dia e local significativos. É 20 de novembro, dia nacional da consciência negra, e está havendo um protesto contra o massacre de 13 crianças de rua. Também o número de crianças mortas tem um significado simbólico. Normalmente considerado de mau agouro, no tarô, o número 13 está relacionado à morte, mas não como um fim e sim um recomeço após a conclusão de um ciclo (12+1). É o que temos no final deste conto. Em meio à manifestação de protesto, o narrador reencontra o filho, com quem havia brigado por não concordar com sua militância no movimento negro. Reconciliado com sua ancestralidade e com sua descendência, ele inicia seu novo trajeto no mundo dos vivos. Agora pai e filho seguem na mesma direção.
Para concluir esta breve análise, gostaria de retomar algumas considerações feitas no início. Parece evidente que a literatura negra caracteriza-se por uma atitude de protesto contra o racismo e pela busca de recuperação da identidade negra. Essa postura militante, é vista por alguns críticos com reservas. Zilá Bernd, por exemplo, considera-a prejudicial ao efeito estético, na medida em que “ao erguer esta bandeira de defesa dos direitos humanos e ao tecer a trama narrativa ou poética com os fios da revolta e da denúncia, esta literatura tende a perder sua literariedade, tornando-se o lugar da recondução do lugar-comum onde até as metáforas são estereotipadas”[5].
Realmente, trata-se de um caminho perigoso, pois a fronteira entre a literatura engajada e a dita panfletária nem sempre é claramente demarcada; dependendo do ponto de vista do crítico, uma obra pode ser enquadrada numa ou noutra categoria. De minha parte, não vejo grandes problemas na utilização da literatura como resposta a situações de opressão. E, no caso da literatura negra, enquanto houver racismo haverá ressentimento e os escritores negros não poderão se furtar em expressar sua indignação. Quanto ao melhor veículo para fazê-lo ? Também parece não haver muita alternativa. Como vimos no primeiro conto analisado, em nosso país, as chamadas minorias não têm espaço nos meios de comunicação convencionais; resta-lhes o espaço “alternativo” da literatura. Contudo, e nesse ponto concordo com Bernd, faz-se necessário que os autores preocupem-se, também, em inovar sua forma de expressão, de modo a apurar a qualidade e ampliar o alcance da literatura negra no Brasil.
Referências bibliográficas:
BARBOSA, Wilson Nascimento. A identidade do negro no Brasil. Conferência. São
Paulo. PUC. Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros, set/1985.
BERND, Zilá. “Identidades e nomadismos”. In Literatura e identidades. JOBIM, José Luís (org.). Rio de Janeiro. J.L.J.S. Fonseca, 1999. P. 95-111.
BROOKSHAW, David. Raça e cor na literatura brasileira. Porto Alegre. Mercado Aberto, 1983.
Cadernos Negros 20: contos afro-brasileiros. Organizador Quilombodje. São Paulo. Quilombodje:Editora Anita:Editora Convivência, 1997.
CHAUÍ, Marilena. “Uma filosofia da liberdade”. In Cult: Revista brasileira de literatura. São Paulo. Lemos Editorial. Número 35, jun/2000. p.43-63.
LOPES, Helena Theodoro e outros. Negro e cultura no Brasil.(Pequena enciclopédia da
cultura brasileira). Rio de Janeiro. UNIBRADE/UNESCO, 1987.
Apêndice:
Segundo David Brookshaw (Raça e cor na literatura brasileira), o estereótipo em relação ao negro consolidou-se na chamada literatura abolicionista, a partir de 1850. Depois desta data, o primeiro romance em folhetim a abordar o tratamento dispensado ao negro, O comendador, de Pinheiro Guimarães, focaliza o escravo com um misto de desgosto e piedade, descrevendo-o de uma maneira que mais o desumaniza, do que o aproxima do humano. Brookshaw, identifica 3 tipos de estereótipos em relação ao escravo: o do escravo fiel; escravo imoral e escravo demônio/violento.
Entre os escravos fiéis encontramos, por exemplo: Mãe, de José de Alencar (1862), cuja dedicação de mãe e escrava leva a protagonista ao suicídio; O cego, de Joaquim M. de Macedo (1860), que exalta a natureza fiel e passiva do escravo (complexo de pai Tomás ou pai joanismo), patente no seguinte trecho da peça:
Serei grato e fiel eternamente
Sou vosso escravo_não Sou mais que isso
Sou cão fiel, que a vossos pés vigia!
O escravo fiel, de Carlos Antonio Cordeiro (1860), peça fraca, submetida à apreciação de Machado de Assis, quando de sua passagem pelo Conservatório Dramático. Segundo o censor, o único mérito da peça consistia na nobreza da sua intenção e em uma ou outra frase de gosto duvidoso para os dias de hoje, como esta:“Eu sou negro, mas as minhas intenções eram brancas”.
O estereótipo do escravo demônio/violento aparece em Calabar, de Agrário de Meneses (1858), cuja personagem principal, mestiço e rebelde, vinga-se das humilhações sofridas. O demônio familiar, de José de Alencar, procura mostrar o perigo de se manter escravos em casa. Na mesma linha, temos História de uma moça rica, de Pinheiro Guimarães. O poema “Mauro, o escravo”, de Fagundes Varela (1864), também trata de um escravo vingativo, assim como o romance As vítimas-algozes, de Macedo (1869). Sangue limpo, de Paulo Eiró (1861), parece destacar-se dentre as outras peças do período, pelo caráter atual do seu discurso. Trata-se de uma história de amor que se passa em meio aos acontecimentos políticos que antecederam a independência do Brasil. Um fidalgo apaixona-se por uma mulata, mas encontra a resistência de seu (dele) pai, que é assassinado por um negro ressentido com o jugo dos senhores brancos. É digna de registro a fala de Rafael, irmão da jovem mestiça, quando inquerido sobre a sua origem:
– Sou filho de um escravo, e que tem isso? Onde está a mancha indelével?... O Brasil é uma terra de cativeiro. Sim todos aqui são escravos. O negro que trabalha seminu, cantando aos raios do sol; o índio que por um miserável salário é empregado na feitura de estradas e capelas; o selvagem, que fugindo ás bandeiras, vaga de mata em mata; o pardo a quem apenas se reconhece o direito de viver esquecido; o branco, enfim, o branco orgulhoso, que sofre de má cara a insolência das Côrtes e o desdém dos europeus. Oh! Quando caírem todas as cadeias, quando esses cativos todos se resgatarem, há de ser um belo e glorioso dia! (Ato II, cena 12) (Bosi, 170-1)
O estereótipo da imoralidade parece Ter se realizado melhor na figura da mulata livre, que na do escravo. Com exceção da pudica escrava Isaura – que era bem branquinha e, talvez por isso mesmo, mantinha a pureza d’alma –; há muitas mulatas faceiras afrontando a moral e os bons costumes na nossa literatura. Vidinha, de Memórias de um sgto de milícias, de Manuel Antonio de Almeida; Rita Baiana, d’O cortiço, de Aluísio Azevedo; para não falar da mais recente Gabriela, de Jorge Amado.
Mesmo entre os escritores negros do passado podemos observar o peso do estereótipo relativo ao negro na medida em que se verifica a eleição do branco como ideal estético. Cruz e Sousa é atormentado pelo sentimento de que o branco é a cor afortunada social e esteticamente. Luis Gama, o primeiro poeta afro-brasileiro a se assumir negro e a clamar contra o preconceito racial, demonstrou seu fascínio pela beleza da mulher branca em muitos de seus poemas. Antonio Candido (Formação da literatura brasileira) já observara este aspecto a propósito de Castro Alves, cujas “... belas moreninhas ... possuem, também elas, traços que atenuam os caracteres africanos”, mas, justifica-o, considerando a dificuldade em se alçar o negro a objeto estético numa literatura ligada ideologicamente a uma estrutura de castas. Diferente do índio, o negro não inspirava lendas heróicas; era a realidade degradante, sem categoria de arte. Ainda assim, considera Antonio Candido,
Castro Alves se tornou o poeta por excelência do escravo ao lhe dar, não só um brado de revolta, mas uma atmosfera de dignidade lírica, em que os seus sentimentos podiam encontrar amparo; ao garantir á sua dor, ao seu amor, a categoria reservada aos do branco, ou do índio literário. (p.277).